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Treinamento da marcha em esteira ergométrica na paralisia cerebral diplégica

Publicado em 19 de Junho de 2012
Treinamento da marcha em esteira ergométrica na paralisia cerebral diplégica
Trabalho de conclusão de curso dos alunos Igor Andrey Barletto França e Nathália Lezanil Sartorelli, sob orientação Profa. Dra. Cristina Iwabe ? curso de fisioterapia ? Centro Universitário Herminio Ometto ? 2010.

A Paralisia Cerebral (PC) pode ocasionar uma variedade de quadros clínicos, a depender do local e extensão da lesão. Por definição de Bax et al., (2005),  a PC é caracterizada essencialmente por alterações motoras, decorrente de lesões encefálicas não progressivas, ao longo do desenvolvimento cerebral (até a idade de 3 anos).

Dentre os tipos clínicos de PC, têm-se a diplegia (PC-D) que caracteristicamente apresenta comprometimento predominante em membros inferiores, assumindo a postura bípede com mecanismos de adaptação postural compensatório, levando a desalinhamentos como: hiperlordose lombar, flexão, adução e rotação interna de quadril. É freqüente observar disfunção na noção corporal e espacial, equilíbrio e lateralização.

Atualmente, associado ao tratamento fisioterapêutico cinesiológico, tem-se utilizado a esteira ergométrica na reabilitação da marcha em crianças com PC e pacientes com lesões medulares, favorecendo o ganho de habilidades motoras e o condicionamento do indivíduo com variados graus de incapacidades.

Em 2010, realizou-se um estudo de caso, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa e Mérito Científico do Centro Universitário Hermínio Ometto, sob o nº do parecer 127/2010, a fim de verificar a influência do treinamento em esteira ergométrica na cinemática da marcha em uma criança com paralisia cerebral diplégica (PC-D).

Para a mensuração da qualidade das atividades funcionais globais e do andar, foi utilizado a escala GMFM-66. Para a avaliação da cinemática da marcha, foi utilizado o protocolo de Kay Cerny, com objetivo de verificar a qualidade da marcha através da análise de variáveis como comprimento do passo, passada, tempo e velocidade de deslocamento. De acordo com o protocolo, a  criança deambulou em um corredor de piso plano e regular, com comprimento total de 16 metros dividido em 3 áreas: inicial (5 metros), central (6 metros) e final (5 metros). Um tapete de papel com16 metros foi fixado na área central do corredor, excluindo os momentos de aceleração e desaceleração nos 5 metros iniciais e 5 metros finais do teste. Para realização das medidas como, comprimento do passo, largura do passo e comprimento da passada, foram fixadas duas canetas Pilot no calcanhar da criança, marcando assim o momento de cada deslocamento. A mensuração do tempo de deslocamento foi considerada a partir do momento inicial do teste.

Após a avaliação inicial iniciou-se o protocolo de tratamento estabelecido. Iniciavam-se as sessões com alongamento passivo de membros inferiores (paciente em decúbito dorsal), durante quinze minutos. A seguir, a criança realizava o treinamento da marcha na esteira ergométrica, com velocidade inicial determinada de 1,0 Km/h. A cada cinco sessões a velocidade da esteira era aumentada 0,5km/h, finalizando com 2km/h.

Cada sessão teve em média a duração de 30/40 minutos, 3 vezes semanais, durante cinco semanas, totalizando 15 sessões. Para análise estatística foi utilizado o teste Anova, que avalia a diferença estatística entre 2 amostras dependentes e do mesmo tamanho, onde o indivíduo é o próprio controle – antes e depois do treinamento. Com p valor <0,01.

Resultados: Na análise funcional, segundo GMFM-66, observou-se aumento do escore total de 66,69 (desvio padrão de 1,47) para 74,75 (desvio padrão 1,94). Na Dimensão E (andar, correr e pular) o escore aumentou de 67,04 para 74,16 (figura 1), com p valor < 0,01.

Em relação à cinemática da marcha, na primeira avaliação a criança realizou 17 passos, com 35,17cm (média) de comprimento entre eles. Após o treinamento, realizou 16 passos, com 37,31cm (média) de comprimento entre eles. Para largura dos passos, inicialmente atingiu valor de 14,26cm (média), aumentando para 15,90cm (média), após o treinamento.

Antes do treinamento, a criança realizou 8 passadas, com 72,62cm (média) de comprimento, e ao final do período proposto, 8 passadas, com 74,62cm (média) de comprimento.

Na primeira avaliação, a criança deambulou 16 metros em 38,84seg, com velocidade média de 0,41m/s, porém, de acordo com o protocolo, essa medida não é levada em consideração, pois há a aceleração e desaceleração na marcha. Portanto são desconsiderados os primeiros e os últimos 5 metros, restando 6 metros válidos, em que a criança caminhou em 13,83 segundos com uma velocidade média de 0,43m/s. Após o treinamento realizou o percurso válido em 11 segundos, com velocidade média de 0,54m/s.

Analisado comparativamente os dados da cinemática, antes e após o treinamento em esteira ergométrica, através do teste ANOVA, observou-se significância de valores entre os momentos de avaliação, com p valor = p = 0,0005.

Desse modo, no presente estudo foi possível observar que o treino de marcha em esteira ergométrica influenciou significativamente a função motora grossa e a cinemática da marcha em uma criança com PC-D, melhorando a qualidade funcional, limitações nas atividades motoras e consequentemente trazendo maior qualidade de vida.